Meus pensamentos me consomem a cada segundo que o sangue corre por minhas veias.
A felicidade me domina e me abomina no mesmo milésimo,
E eu vivo sem entender o porque de viver.
Sou concreto e conciso, sou desperto e indeciso,
Paro e pairo diante do caminho,
Sem saber qual vertente seguir.
Paradoxos de meus desejos,
Existo por inexatidão.
O tempo se abre e se fecha, a melodia toca, e eu sigo a canção.
Eu me tornei meu próprio desapego.
Desassossego.
- Desassossego;
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- Sombra;
Cerrou os olhos. Ao contrário do que seria padecer para a vida, os olhos se fecharam para a sabedoria, para o amor, para a felicidade. Era a vida que continuava viva, mas que era deixada de viver.
Nada se comparou aquela tarde resplandecente. Os feixes de luz entravam por cada vão da cortina, sobre a janela da sala. Era inverno, mas aquela luz fazia com que eu me aquecesse, e me sentisse seguro por entre a alegria que era gerada em cada pedacinho de luz. Eu sabia que eu era feliz, simplesmente por estar ali, e mesmo sem fazer nada, eu sabia que tinha o mundo aos meus pés. O tempo passava lentamente, e eu curtia cada segundo sem fazer nada, apenas admirando como era belo viver.
Ao entardecer pude perceber que algo estava prostrado em minha porta. Eu não sabia dizer se era a sobra de alguém, se era alguém querendo ser sombra, ou se não era ninguém. Não me assustei, pois sabia que estava acolhido com todo o poder da felicidade que me cercava. O que estava parado em minha porta decidiu entrar. Era estranho, fora do comum. Como se uma pessoa tivesse vestido a sombra que o segue em cada segundo onde há luz, e tivesse se tornado a própria sombra. Mas ao mesmo tempo era possível ver as roupas, a silhueta e os olhos daquele serão conseguia visualizar o seu rosto, pois ele estava perdido dentro de sua própria sombra. A sombra chegou mais perto, me cercou, me fitou, e permaneceu de pé, parada. Toda a felicidade começou ir embora...
Após um longo tempo, a sombra balbuciou:
- Interessante é perceber que, quando pensamos que fomos tudo, na verdade não somos nada! Eu fui tudo, eu fui o ápice, cheguei a lugares do coração que nem mesmo o maior poeta imaginou chegar, e hoje estou aqui, me consumindo, tornando-me sombra de minha sombra – Eu não via sua boca se mexendo, mas sabia que ela estava ali – Eu tinha o mundo, eu tinha você, e hoje, sou somente o que jamais sonhei ser um dia. Sou a tristeza, o assombro, a mentira, a escuridão e a solidão. Não sinto mais o sangue correr por minhas veias, as feridas arderem, ou me coração bater. Simplesmente sei que sigo, por debaixo desta capa natural, por um caminho sem fim, para o nada.
Desejei não ter ouvido essas palavras, que consumiram todo o restante da felicidade que a tarde havia deixado em mim. Porém, juntei forças de toda a luz que recebi, e respondi uma pergunta que não havia sido feita:
- A realidade é que você nunca foi tudo isso que você pensou que fosse! Você é normal, e não superior, como sempre achou que fosse. O mundo nunca girou em seu umbigo, embora as pessoas o fizessem acreditar a cada segundo nisto. Você não é e nunca será o centro, assim como eu e ninguém também vai ser. Somos todos microorganismos de um só corpo, o universo. Você fez com que tudo e todos os tipos de sentimentos que as pessoas cultivavam de você, morressem deliberadamente a cada minuto que você queria se sobressair. E agora, você continua fazendo o mesmo, só que vestindo uma capa, para que jamais descubram que é esse novo você. – Eu não sabia quem estava por detrás daquela sombra, mas de algo eu tinha certeza: era alguém que já gostei muito. Por mais seca que a sombra tenha aparentado, havia nela algo de procura da verdade, da realidade.
Aquele alguém retirou sua sombra, deixando mostrar sua verdadeira face. A última pessoa que imaginei que fosse, se escondia atrás daquela sombra: Eu.
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