- A Primavera;



A tarde típica de primavera não negava o seu ânimo. O tempo estava fresco, poucas nuvens no céu, e o sol levemente caloroso, do tipo que dava vontade de bocejar. Uma leve brisa batia nas plantas, como se os anjos estivessem brincando de assoprar seus cataventos. Ele caminhava em direção à caixa de correio, do tipo prateada, que ficava presa no grande portão de madeira. Ela estava cheia de folhetos de pizzarias, dentistas e contas para serem pagas. Porém, havia uma correspondência em um envelope vermelho, selada com um brasão, com desenho de um leão no centro, sem remetente. Mais que depressa se senta no chão, esquece todas as contas e prestações, e abre o belo envelope. Era um papel de carta avermelhado, com desenhos de flores em margem d’água, e com aroma de perfume amadeirado. Começou a ler:



Mundo, todos os dias de minha vida, até a minha morte.



Exatamente à você.



Espero que se encontre de coração aberto, de afetos limpos e sem sonhos desperdiçados. E, espero que tudo isso esteja de tal forma para que eu possa lhe dizer o que sinto por você (nada que você já não saiba). Sim, é impossível negar que eu amo você, que gostaria de ter-lhe todos os dias ao meu lado. Gostaria de sentir o seu abraço mais apertado, os seus desejos mais secretos, e ouvir todos os seus sonhos, e sentindo cada um deles me invadirem lentamente, enquanto deitamos no céu, e observamos a grama.



Ainda ontem ouvi novamente aquela velha música que eu não suporto, mas sei que é a sua predileta. Ouvi, pelo menos sete vezes. Chorei depois da quarta. Assisti, sozinho, o filme que você comentou comigo que era divino. Não gostei. Mas eu gosto de você, então o filme se tornou interessante em pequenos detalhes que me lembravam o seu jeito, o seu sorriso. Olhei suas fotos, uma por uma, reparando como seus olhos brilham com sinceridade. Parecia que você estava em minha frente, ou apenas seus olhos, de cor marrom avermelhado, se encontrando com os meus.



Acredito que neste momento, em que você lê esta carta, o dia está alegre, como se o outono, o verão e a primavera se esbarrassem, dessem as mãos e fizessem uma roda em torno de ti, entoando palavras de felicidade dentro do seu coração. Eu às vezes penso ser a Primavera. Eu falo tudo o que desejo, mas é como se você não me visse, ou se me vê, ignora a minha existência.



Você prefere que o inverno lhe sonde, dê voltas principalmente dentro de você, e ainda mais perto de seu coração. E eu posso jogar quantas pétalas existirem em cima de você, todo o seu inverno irá congelá-las. Você é o Inverno. Não, você não é frio, pelo contrário. Sua simpatia e harmonia me lembram mais o verão. Mas, basta eu olhar para os seus olhos cor de cerejeira, que por dentro me aparece um lago congelado. Eu sou a Primavera. Eu resisto a quantos lagos congelados forem necessários, para deixar que todas as minhas cores te invadam, e o frio passe. Eu assopraria pétalas de girassóis em torno de ti, para que você possa brincar de ser o sol, e aquecer o mundo, me aquecer.



Sei que se ama mais que tudo, mas que tal permitir-se a maior dádiva da vida? Que tal ser apresentado ao amor? Se quiser, lhe apresento agora, já que ele não tem endereço fixo e está morando aonde você preferir que ele more. O meu amor mora dentro de você. Eu sei, foi ele quem me contou. Não, ele não disse com palavras, foi com seu sorriso, com o seu jeito. E, se permitir que o seu amor viva dentro de mim, você ainda receberá taxas de felicidade, junto com quantos aposentos de afetividade você precisar. Nunca mais precisará habitar outro alguém da mesma forma, eu te completarei.



Sabe onde me encontrar. Se não souber, eu sei como lhe encontro.



Sem mais,

Sua Primavera.



Ele re-leu mais uma vez a carta. Seu olho brilhou. Então a rasgou, junto com o envelope vermelho, no máximo de pedaços que podia. Ele não se permitia, não se deixava. Queria, e não queria.



O vento tratou de fazer pedaço por pedaço rodar em sua volta, como um pequeno furacão de emoções. Os pedaços do papel se misturaram com as folhas secas e as pétalas do jardim. Giravam para todos os lados, como se dançassem. A carta foi despedaçada, mas o conteúdo ficou dentro dele. Os anjos não brincavam mais com seus cataventos. Não era mais o vento quem dava as ordens, era a Primavera.



- Eu sou como o Tempo;

Eu sou como o Tempo. Desprendido de qualquer situação, eu passo e deixo marcas. Enquanto eu estou aqui, posso não estar mais. Eu sou o antes, o agora e o depois; faço parte do seu cotidiano, estou dentro e fora de você, perto e longe, você vê e não me vê. Eu sou notável e imperceptível, posso ser a falta e o excesso, o que está em sua mão, e derrepente não está mais.

Eu sou como o Tempo, que embora todos tentem me dominar, sou indomável, e quando pensam que me administram, eu escapo por entre os dedos e participo de outra parte do seu corpo. Estou a tua volta, te guiando, mas não mudando o rumo de sua vida, pois, embora eu seja como o Tempo, não tenho o poder de ser a tua jornada, apenas de estar ao seu lado.

Mesmo eu sendo como o Tempo, jamais me confunda com o Destino, pois te deixo livre para fazer escolhas, não digo o que é certo, não recrimino o que é errado, não te guio nem te consumo, deixo que você pense e aja, por si. E, embora eu esteja sempre em sua vida, não sou como o Passado, que não lhe dá uma segunda chance de recomeçar.

Eu sou apenas como o Tempo, te dou todas as opções de ser feliz, só dependo do seu Tempo.

Meia Luz;

Ele estava na sala. Ela era razoavelmente grande, com três paredes brancas e uma com textura cor de laranja. A luz estava apagada, e todos os moveis que podiam ser observados estavam à meia luz, dentre as sombras. Assim que adentrei o ambiente, não havia percebido sua presença, até porque fazia muito tempo que não sentava naquele sofá.

Me deparei com centenas de perguntas em minha mente, mas a vergonha do que ele poderia achar, ou mesmo responder. Não disse nada. Não dissemos nada. Apenas sentamos, lado a lado, como se o mundo fosse aquele ambiente.

O tempo passou, e vi que muita coisa ocorreu nesse meio tempo. Eu cresci, vivi novas experiências. Mas, continuavamos sentados naquele sofá, sem muito a dizer, ao não ser a própria meia luz nos calando gradualmente. Mas um dia, a luz se apagou, eu não vi mais o sofá, eu nunca mais o vi.

Foi o tempo perdido com baboseiras. Foram as baboseiras que nunca disse. Foi o que será daqui em diante.

Novas Condições;


Não posso mais transpassar a redoma que um dia vivi.
Dentro dela me infurnei,
E se alguns segundos eu me desencontrei,
Foram nestes que me decidi.

Em tais decisões encontrei resposta claras,
Das quais sequer imaginei encontrar,
Soaram pesadas, frágeis e raras,
E sei que à elas posso me entregar.

Decidi que a infelicidade que me causava estafa,
Estagnava as etapas que deveria viver meu coração.
E a todo momento em que o sufoco me abafava,
Deveria sorrir, mesmo em contradição.

Não haveriam mais metas para a felicidade,
Pois ser feliz deveria ser lei.
Se estou desgastado com esta verdade,
Resgatarei a verdade que de fato eu sei.

UC1 - 117 / 11h10 (Pai)

Era uma bela e incomum manhã de outono. Uma brisa fria batia em meu rosto, junto com o sol radiante, e o céu de multitons de azul, sem ao menos uma nuvem no céu. O dia era perfeito para um dia feliz. Era.

A manhã se convertia em um quarto de hospital, divido em seis leitos, seis vidas, e uma delas, me pertencia. Um pedaço de mim se mantia em estado delicado, com aparelhos ligados ao corpo, uma inalação somente com água, e duas bolsas de soro, que fingiam derramar a vida de gota em gota. O pedaço que permanecia dentro daquele quarto era parte de meu alicerce, este que já estava debilitado por ser apenas, ao invés de dois, somente um.

A cena era chocante, e triste. Meu alicerce buscava resgatá-lo, sem sucesso. Então, tal pedaço, com seus olhos semicerrados pareceram me identificar. Os olhos que quase fechavam, se abriram de forma rápida, por cerca de um segundo, e me olharam dentro d’alma. O segundo se transformou em um gigantesco flashback. Os grandes e arregalados olhos verdes me levaram por um mundo que eu já havia vivido, mas havia esquecido. Fui até minha infância, onde ele me vestia com o meu bom e simples uniforme verde e branco da pré-escola; que me acordava pelas manhãs; me levava ao cinema, fazia brincadeiras. Deitava ao meu lado na cama até eu pegar no sono, quando tinha medo do escuro. Cantava músicas sertanejas, ou mesmo desconexas, com ritmos próprios produzidos pela boca, e que ele mesmo inventava; contava histórias, dava broncas, aconselhava sutilmente; era bravo e calmo ao mesmo tempo. Aquele olhar me serviu como máquina do tempo, me fazendo pensar e repensar em cada segundo bom que eu já havia vivido ao seu lado, esquecendo a cena que eu vivia naquele segundo. Ainda com tempo, eu buscava encaixar aquele pedaço a mim, dizendo tudo que estava engasgado, soltando poucas palavras que a vergonha idiota não me permitia dizer ao longo dos anos. Havia tempo de dizer. Havia tempo de se escutar. Havia tempo de responder.

Meu pedaço deixava claro que lutava contra o tempo, contra os batimentos cardíacos, contra a luz divina que descia para buscá-lo. Ele esperou, por longas horas, que toda a família se reunisse a sua volta, que lhe dessem o último e penoso adeus, e que ele pudesse lavar a alma naquele leito de hospital. O mundo se fechou em quatro paredes, e em quatro almas entrelaçadas.

Uma enfermeira entra no quarto, e pede licença por cinco minutos, enquanto trocava os pacientes dos demais cinco leitos. Foi à deixa do meu pedaço. Já havia se despedido, não havia necessidade de vermos sua partida. Viramos as costas e ele se despediu do mundo. Os médicos correm, como se buscassem resgatar tal vida, aquela que já estava cansada de viver neste plano. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Nada que os médicos fizessem, o trariam de volta como meu pedaço já fora um dia.

Ele fechou os lindos olhos verdes, para sempre. Não precisaria mais deles. Agora seus olhos eram os da alma, e com estes, ele veria o meu e outros mundos, com outros olhos.

Sobrepondo Pessoas;

Abri a porta e me deparei com um ambiente sem luz, sem vida, sem graça. Procurei o interruptor, e nada encontrei além de mofo na parede. Criei a luz com o flip aberto do meu celular. O quarto ficou a meia luz. Haviam coisas antigas, rodeadas por poeira, humidade e teias de aranha. Dentre tantos objetos haviam: uma fotografia molhada do lado direito, desfocando quem estava ao meu lado; uma penteadeira com um espelho trincado, que só permitia ver-me em diversos pedaços, e um ursinho velho, marrom, sem um olho e o fucinho, e soltando bolinhas de isopor por sua pata direita. Encontrei também uma vela. A acendi



Sentei em frente a penteadeira, me vi em 14 pedaços. Em cada um deles eu tinha uma face diferente. Olhei a fotografia, e era bem recente; mas não consegui enxergar quem estava ao meu lado. Abracei o ursinho, com força, até meu nariz coçar insuportávelmente e quase todas as bolinhas saírem por sua pata.


Cada face que eu olhei, era um pedaço desfacelado de mim.
Quem estava naquela velha-nova fotografia, já fizera parte de mim.
E cada vez que o ursinho derramava suas bolinhas de isopor, e esvaziava, era eu quem ficava vazio.

Apaguei a Vela.
Apaguei a luz do celular.
Fechei a porta do quarto escuro.
Não era o quarto;

Era a Vida.