- Eu, meu Eu, e seu Eu;



Gostaria de ter certeza de que é você;

Senti que nesses meses que passei no flagelo, nunca mais fosse saber o que era um bom sentimento, ou melhor, um sentimentalismo. Eu sabia somente quem era eu e meu eu, e de como vivíamos sozinhos dentro de mim. Éramos essenciais um ao outro, porém era um sentimento completamente egoísta. Não queria sentir por nós dois, queria sentir por um terceiro, um terceiro para estabilizar meu coração. Os dias correram sempre com sentido, mas um sentido próprio, de quem vira com a córnea e a íris para dentro, e o globo ocular completamente branco pra fora. O mundo era da cor do sangue, mas era confortável e cheio, de mim.

Até o dia que senti algo diferente. Alguém tirou meu eu de mim. Eu me tornei uma pessoa só, mas vazia, buscando aquele velho complemento egoísta. Sentia-me frio e esquecido, pois todos os desejos que eu havia compartilhado, tornaram-se apenas meus. Era você, que havia cruzado o meu caminho, desvirando meu globo ocular, fazendo minha pupila dilatar, dando um velho-novo sentido ao meu mundo.

Seus gostos excêntricos e exóticos se misturavam aos meus; seu cheiro me inspirava a não largá-lo. Sabia que tudo tinha um novo ritmo, um novo sentido. Eu sabia disso, pois quando éramos eu e meu eu, eu senti algo parecido, mas não era tão completo. Sabia que você agregava algo em mim, mas ainda não havia encontrado palavras para definir, e talvez eu jamais encontraria. O que eu sentia era único.

Percebi que podia viver sem meu eu, somente eu e você. Mas, até quando eu seria tão importante quanto seu eu? E até onde iríamos notar que ambos somos complementares, e não somente necessários? Eu sei dizer do que sinto, mas não sei dizer do que você sente. Talvez eu seja apenas a sombra que seu globo ocular ao inverso, que olha por dentro de si, tenha uma pequena noção do mundo de fora. Aguardo o dia em que possa ver a verdadeira cor dos seus olhos. Espero ansioso que possa olhar diretamente nos meus.

Sem meu eu, sem seu eu. Somente eu e você.

Sinto saudades do que não deveria sentir. Sinto falta dos olhares cruzados, do beijo descompromissado, das coincidências que nos pareceram nulas.
O seu rosto expressivo, discreto e tímido bem perto do meu, dizia muito mais do que todas as palavras que sua timidez não me disse. Não era nada, não é nada, mas estar perto de você me faz um bem incomum. É como se o mundo fosse um seriado de televisão sem episódios tristes, com uma música levemente agitada e romântica tocando, e nossos corações (ou somente o meu) palpitando em um ritmo frenético.

Percebo que você não está tão próximo quanto eu gostaria. Não sei se por você, pelo seu jeito retraído, ou mesmo por mim. Sinto algo que não deveria sentir, para não estragar tudo: saudades.

- Manto;


O desejo voraz da guerra recaí sobre nossas almas como um manto sujo de sangue. O prazer de continuar insistindo em dores psíquicas faz com que os sonhos se transformem em uma bola de desejos infundados, que não merecem mais do que a lata de lixo. Esquecemos que o lixo vive dentro de nós mesmos, e por mais que tentemos excluir nossos sonhos, eles serão reciclados por dentro. A única coisa que não salva você de seu sonho, é quando sua consciência é pútrida, onde não permite que nada, além da aspiração pelo mal, viva e conviva dentro de você.

Houve um tempo em que o amor preenchia suas veias, invadindo seu coração, mas o contágio do pior veneno do mundo, o ódio, fez com que nada mais circulasse por suas veias além de seu sangue, e este, sujo pelos impulsos fétidos de seu cérebro, que só tem aspirado pelo rancor.

A vida que lhe brota dos olhos, pode ser sua maior ou pior aliada, dependendo do manuseio das suas pálpebras. O olhar bruto e desumanitário te leva a manipular desejos e transformá-los em anseios, dos quais não se pode fugir. Não há fuga do medo, do imprevisível, e por mais que você tente prever o futuro, o próprio medo faz com que sua previsão escape por seu cérebro, como a água que escaparia pelos dedos. Sua atitude brusca e deprimente te leva a um subterfúgio negro, onde ninguém poderá lhe salvar.

A alma coberta de sangue passa a ser sua principal armadura, amargurada, e dura.