- Inigualável;

Inigualável.
Carne e osso personificados em adjetivo, e mesmo inverbificado, posso conjugá-lo no pretérito, no presente e no futuro.

Descansa o alterego, para que o melhor de si acorde,
Dê vida ao exacerbo do zelo, da libido, da empatia.
Desperta como uma música, num tom e acorde,
Que sinto em mim a melhor sinfonia.

Estranho é não ter percebido a necessidade de sentir, de viver, de crescer, de sonhar, de almejar, de cantar, de sorrir, de florear coisas que estão longe do alcance da minha mente, e somente um coração sensato consegue entonar no ponto exato do que a alegria pede. Momentos são registros de atos, de fala, de loucura, que não poderia paralisar em uma foto, ou dar aura em um vídeo.

Distorço teus anseios, de forma manipuladora,
A fim de que eu possa ser dono do que não sei,
E de forma sinistra e constrangedora
Eu refaço o teu dolo, de uma forma que não contarei.

Os sentidos dos meus sentimentos tem mão dupla, dividos pelo receio de seguir em linha reta para aventurar-me em linha cruzada. Teu caminho guia a minha certeza incerta, e seguir sem saber é um fato desolado. Tenho certeza de não ter, de não ser, já que o oferecimento é muito maior que eu mesmo. Sou tolo e torpe por querer o impossível; estou débil de sentimento, frágil de razão. Os teus desvios nos meus são minha mentira ambulante, e não posso discordar de minha hipocrisia. Minha cronologia é falha, e em paralelo com a sua me deixa tonto, e não sei acontecer.

Saímos de mãos dadas para o mundo sem um guia que nos coloque em um caminho, pois sei que parto sem saída com destino ao infinito, ao inverso de ti, pois vejo que é finito onde você irá chegar.

- Através do Espelho;


Não posso mais perguntar "Espelho, Espelho meu", pois acabo de descobrir que o espelho sou eu.

Após tantos anos enfrentando face à face a minha face de vidro, percebi que estava desfacelada em diversas outras faces, como a face que encontro em você.

O oxigênio entrando em meu corpo, o gás carbônico saindo, o pulsar de meu coração, minhas naúseas, meus pés, braços, sentidos; são todos pertencentes a você, que está do outro lado do espelho, do outro lado de mim, dentro de mim.

Suas atitudes nada mais são que minhas atitudes, e posso saber tudo o que você faz, tudo o que você já fez, tudo o que é capaz de fazer. Eu sou você. Você sou eu. Somos apenas vidro espelhado, e alguém do outro lado.

Seus desejos incompletos me completam, seu olhar perdido tentando disfarçar sabe-se lá o que, teus lábios na medida, teu jeito descabido. Eu não sei se sei quem é você, que encontra-se em meu vidro, dividindo meus sentidos.

É o narcizo disfarçado de mim mesmo, apaixonado por alguém que sei exatamente quem é, que sabe o que quer, e neste querer está não querer nada. Eu não quero nada com nada, com você, sem nada. Eu olho no espelho enxengando um eu de outra forma, de outra cor, de outro rosto.

Fico preso em uma imagem clara, limpa e extasiante, na qual me pego por horas sem fim, olhando. Eu esqueço de esquecer que é somente o espelho, e se estou do outro lado, não posso ter quem me olha fixamente; sem saber o que sou, já que sou exatamente você.

- Sentido;



Não faz mais sentido.
Tudo o que falam, façam; eu ouço.
O que mentem, mantém ou pensam.
Passa o mundo com o tempo que passou,
E nada passa, tudo é passado.
O que na verdade importa é o que não importa,
E somente importou há cinco minutos atrás,
Quando acreditaram que havia importância.

Esqueceram de esquecer,
Que há sentimento, não há esquecimento;
Há hipocrisia, não há mais fantasia.
Me disseram que tudo aquilo que eu senti
Na verdade não sentia, sinto, sentiria.
Talvez o fato é que cada fato é isolado,
Deturpado, irritado e fechado.

É melhor não ver mais com a boca,
Não ouvir com os olhos,
Nem degustar com os ouvidos.
Melhor esquecer a verdade alheia,
Que me fere a vida inteira,
Que não tem mais sentido...

Não tem mais sentido,
Tudo isso que eu tentei dizer,
E que na verdade, não disse nada.
O sentido se foi juntamente quando fui explicá-lo.

- Soneto à um Desalento;


Eu esperei viver esse momento
Cada dia de minha vida,
Mas não imaginava que o desalento,
Fosse cobrir essa ferida.

O meu contentamento,
Era uma medida descabida,
Me levava ao sofrimento,
De uma sentimento sem saída.

O melhor sentido de tudo
É que ainda posso me iludir,
Fechar os olhos, ficar mudo,

E com o universo posso coibir;
Não há maior dor nesse mundo,
Do que gostar e ter que suprimir.

- Não Sei O Que Amo;

Eu não sei mais o que amo.

Fechei meus olhos e passei a desacreditar em qualquer tipo de amor. Venha ele de você, de mim, dele ou dela; o amor é apenas um peso que carregamos; é como açucar, é doce, satisfaz, realiza, enaltece, mas em excesso e aos poucos, te mata.

Os seres humanos não sabem onde pisam, mas pisam. Pisam uns aos outros, por recalque, por desejo, por luxuria, por instasfação. O amor vira amarra, prende os pulsos, corta o sangue, desoxigena o cérebro, desgasta o coração.

Não devo mais me apaixonar. Paixões são como um veneno pingando nas veias, te sufocando e te abastando aos poucos. Desacreditdo que haja algo especial, pois cada alguém é uma mesma historia repitida, é uma novela, é um desamor proprio.

Eu desacredito na amizade. Ela não floresce como dizem, não parte de mim nem de ti, ela se choca e gera uma sensação de prazer, de bem, de bom. Mas ela se desfaz, desfalece, falece.

Eu tenho a plena certeza do que não posso amar: tudo que amo. Tudo que amo é uma mentira que não existe, é hipocrisia sorrateira, é autoflagelo, é suicidio doloso, é recalque, é fogo, é gelo, é odio. A cada piscar de olhos é uma cena perdida, reconstituída incertamente. É a vida em sépia, onde não há preto e branco, não há yin-yang, não há cores primárias, secundárias, quentes ou frias. É apenas desgaste do corpo, do âmago, de si mesmo.

Eu não sei mais o que amo. E posso me incluir em que não amar. Onde estará o que um dia eu serei, e o que um dia você será?

- O Voo da Phoenix;


Por mais inconstante que um circulo de pessoas ao nosso redor possa ser, o processo de se viver uma amizade é, e deve ser migratório. Inicia-se com um abraço, com empatia, com devoção e loucura. E todo o alicerce para se contruir e se manter uma amizade, parte do amor. Este, que é o principal elemento, está escondido sobre as colchas que insistimos em colocar sobre as nossas relações, quando na verdade só precisariamos de uma coberta. Mas ele está ali, explicito ou implícito, todos sabem que ele está ali.

E, neste rumo da migração, a amizade ocorre como uma fênix. Ao final, apesar de parecer, ela não morre, mas vira cinzas. O fogo acaba por consumir cada vínculo, cada retalho e cada detalhe. Tudo acaba. Tudo acaba-se. As conversas, o sonho, as promessas, outro sonho, as dores, um sonho. Cada tijolo encontra-se em uma casa que não tem quatro paredes; não são cômodos, são incômodos.

Contudo, as cinzas que restam desta fênix chamada amizade não esvaem com o vento. Ela permanece enquanto há vida (ou mesmo quando não há, pois esse fator pouco importa a quem está vegetando). A cinza, escura, fria, áspera, fina e frágil, nada mais é do que o principal elemento da amizade, o amor. E, por mais que uma amizade encontre-se sempre em um processo migratório, o amor não. Ele continua no mesmo local, intocável. As pessoas esquecem-se de que ele ainda existe, e de que ainda há amor daquele que partiu.

Logo, a fênix renasce das cinzas, como um novo filhote, pronto para crescer, viver e voar. O fruto do amor, a amizade, toma o mesmo rumo. Mudam-se os tempos, as idéias, os motivos e as pessoas. Mas, o migrar de uma amizade, só prova que esta foi verdadeira um dia, e se será adiante. A amizade é fenix porque é forte, voraz, arde em fogo, queima por dentro e por fora, e se acabar, renasce novamente. Só depende do amor.

- Amor, Jovens e Sentimentos;

Texto de um amigo, Ranieri Trecha. - http://ranieritrecha.com/blog/


Não me vejo mais passando meus dedos sobre um espaço vazio ao meu lado, mudamos, crescemos e aprendemos, pensamos que amamos, nos enganamos quando realmente reconhecemos o que é o amor, posso ser inverno quando devo ser o verão, mas sinceramente não há algo mais especial no mundo do que amar e ser amado.

Dizem os sábios que jovens não amam, que queremos diversão acima dos nossos limites, ou melhor, esses “limites” nós não temos, mas isso é um engano, amamos muito mais do que deveríamos, sentimos sem limitar nossos sentimentos e sonhamos com um “felizes para sempre” a cada novo parágrafo da nossa vida.

Minha felicidade é ter alguém ao meu lado para me ouvir me amando, me entender ou não me entender me amando, e a cada novo sorriso que essa pessoa der eu sei que ela vai estar me amando, posso não resolver todos os meus problemas com isso, mas eu estarei feliz para resolvê-los.

Fazemos tempestades em copos d’água, choramos rios por que somos sentimentais, ficamos de bico por que não sabemos ouvir um ‘não’, fazemos DR para resolver nem sabemos o que… sei que lembraremos disso daqui alguns anos e diremos “nossa como éramos infantis”, mas o amor será o mesmo desde o primeiro dia em que você olhou para aquele rosto, respire o quanto tiver que respirar, sorria o quanto tiver que sorrir e diga tantos “eu te amo” que você perderá as contas.

Não tente matar o amor por um ou mais desamores, se foi desamor é por que não foi amor, por isso não mate o sentimento errado, mate o desamor, ele é o culpado. Ame!

- Subversivo;


Sou metrificado por meus anseios,
Redirecionado a meus amores,
Extirpado por minhas dores,
Amarrado por meus receios.
Sou moldável à justiça,
Sondável à ignorância,
Próspero à discrepância,
Fértil à preguiça.

Meus amores são meus desejos,
Que são meus sonhos, e são vazios,
E são doces, e são frios;
De meus inúmeros gracejos.
Minhas vidas são contáveis,
De alegria, de vingança,
De paixão e perseverança,
Aos meus detalhes palpáveis.

Encontro-me em um universo subversivo,
Onde perco-me ao encontrar o meu Deus,
E encontro-me ao perder ateus.
Discreto, concreto e objetivo,
Existo apenas para dizer Adeus.

- Discordância;


Discordância.

Nossa vida tem o mesmo rumo, mas não o mesmo destino. Ambas personalidades se completam, mas deterioram-se ao perceber que há muita diferença entre todos, entre nós.

Sou o ciúmes fechado, em formato redondo, moldável, para que a interpretação seja calculada sempre com a mesma formúla, mas o resultado seja diferente. Sou o amor de praxe, o ódio, o afeto, o recalque e a disponibilidade. Eu assumo meus erros em forma de glorificações, não perdoo em menos de cinco minutos, tenho atitudes grosseiras, sou voraz e afável.

Sou um estranho dentro de mim, direto e objetivo, que omite a mentira. Sou a felicidade, a inveja, a sinceridade, a culpa, o imediatismo e a cumplicidade. Sigo exatamente por aquele caminho que acredito que devo seguir, mas altero o destino em segundos, indo para a estrada que não deveria ir. O meu cérebro age antes de minha boca, e atua através de minhas cordas vocais, sem que eu possa analisar o que realmente meus labios gostariam de ter dito.

Sou o porto seguro mais obscuro que existe, já que não acredito em minhas capacidades, tenho medo do que faço, e quando o faço. Sou expontâneo, discreto, amigo, apático, singelo, doce, individualista e egoísta. Minha teimosia mostra que nunca estou errado, e quando estou, prefiro omitir meu erro. Eu gosto daquilo que não tenho, e jamais poderei ter.

Nestes pontos, eu perco as contas de quem eu sou, de quem você é, e de quem nós somos. Vamos parar exatamente em lugar algum, rodeados de nada. A mutualidade irá sumir juntamente com os sonhos, as promessas e a dedicação.

Somos uma só pessoa, e jamais compreenderemos o que se passa dentro de nós mesmos.

- A Amizade é um Vício;




A amizade é um vício.


Ela começa do nada, por um simples oi, empatia ou simpatia. E assim como o universo, que do nada veio, e se transformou no infinito, a amizade acontece da mesma forma; aos poucos, com cada detalhe se tornando um microorganismo. Juntos eles vão se transformando em um corpo só, unificados, modificados.

Como a nicotina, que preenche os pulmões e o cérebro, acalma e mata, a amizade acontece igualmente. Ela entra por cada poro, atua no organismo e te enaltece de alegria, mas te comprime lentamente. A amizade é um vício, ela equilibra o bem e o mal que é saber como e quando estar dentro da outra pessoa.

O amor, que sugere todo o tipo de sentimento bom e constante, metamorfoseia quase instantaneamente em ódio quando a amizade, amada, fere um desses sentimentos. O que um dia te fez bem e te completou, pode te matar, tão lentamente quanto o uso de uma droga.

Apesar do beneficio, a projeção no outro pode se tornar um malefício. O que deveria ser uma troca mutua de confidencias, de consciência, pode vir a se tornar um elo do mal, uma falcatrua maquiada de sorriso, uma mentira posta entre dentes. Um segredo sobre um sonho pode vir a ser um futuro pesadelo.

E exatamente como o universo e a vida, que há um começo, um meio e um fim, a amizade domina a alegria e a tristeza de uma vida inteira, e acaba-se por morrer. Seja pela morte natural do afeto, seja pela morte natural da vida.

- Meus Eu's, Meus Meu's;


Tenho dois dias, dois beijos, dois sonhos e, consequentemente, dois pesadelos.

Antes de sair de casa, questionei meu alterego sobre o que ele queria hoje, mas ele só me respondia: "- Exatamente aquilo que você não quer". Tenho dois eu's lutando por dois meu's.

Um, de certo é encantador. É como se um enorme coração invadisse o espaço que ele se encontra, pra dizer, entre muitas palavras, que sou belo. É tão sutil quanto o vento, pois demonstra exatamente aquilo que quer demonstrar (amor com indiferença), mas os olhos não negam o quão fervoroso é seu sentimento. Ficaria horas conversando de banalidades, coisas inteligente e simples, e que ficariamos dias se deixassem-nos conversando. O problema é meu eu, que não encontrou neste meu alguém admirável, e invejável à rua, ao asfalto.

O outro é um sonho. Tem beleza, timidez na moderação certa, carinho e afeto que não caberiam dentro de uma pessoa normal. Nenhuma palavra me faz sorrir, e várias me fazem esquecer do mundo. É a sinceridade com a calmaria, pois diz aquilo que você sabe, não quer escutar, mas faz questão de mostrar, para que os pratos sujos jamais sejam prantos limpos. O problema é meu eu, que criou neste meu um desapego gratuito, com um empecilho; por estar não estar na porta de casa, mas na rua de baixo.

Meus eu's são tão conflitantes que fazem os meu's parecerem impecáveis imperfeitos. Tão certos do que são para si e para mim, mas tão errados no que eles podem se tranformar um dia.

O problema são meus eu's meu's. As decisões não dependem deles, dependem de mim.

- Instigações;


Teu jeito me instiga.
Teu olhar disfarçado de interesse, que não é dito pela boca, mas com a própria pupila, me delega a um sentimento quase mensurável.
Poderia ficar horas apenas olhando pra ti, cada detalhe da sua face super expressiva, e ter certeza do que desejo. Ah, e que desejo! Aquele que me entorpece ao abrir e fechar os olhos, ao respirar e a viver.
Pensar em você aperta tanto meu coração, que eu poderia cometer qualquer loucura, a qualquer momento, só para ter-lhe perto de mim. E este é o melhor aperto que já senti. Ele não sufoca, ele deixa meu coração livre para bater da forma que ele quiser, desde que ele tenha a plena certeza de que você está por perto.
Só eu sei quanto amor eu não passei. Não sei se estou passando, ou se apenas vai passar, mas sinto que poderia viver este mesmo momento eternas vezes, afim de que a felicidade me domine plenamente, assim como ela me domina agora, enquanto falo com você. Sou instigado diariamente por tudo que você me oferece: simpatia, simplicidade e um sorriso. Se pudesse, roubaria cada um deles pra mim.

Para ser sincero, não gostaria de algo seu, que eu sei que posso ter: seu amor.

- Antagonismo;


Sou antagônico.

Neste momento em que escrevo, desejo que o mundo me ame,
Enquanto na verdade eu o odeio; e o amo.
Todas as sensações, infinitamente ditas indescritíveis são falsas,
E a falsidade é por eu poder descrevê-las.
Eu posso me descrever, mas eu não devo.

O meu alterego tomou conta do meu eu, e não posso ser aquele que um dia fui. Alias, o que um dia fui não tem mais sentido, pois este se perdeu em cada defeito que deixei que a vida me agregasse. Desaprendi a sinceridade, a lealdade, o companheirismo, a fidelidade. Sou apenas mais um Eu, perdido dentro de mim.
Cada pedaço que me forma está desgastado e desiludido. Me insatisfaço fácilmente com impulsividade, agressividade, imediatismo, e me calo diante de mim. Sou verdade e desafio. Ao mesmo tempo que tomo tento para empinar minha cabeça, abaixo-a no mesmo instante, a fim de que não me vejam.

Meus sentimentos tem duplo sentido. A cada ambiguidade que adentra meu coração, são suspiros falsos e inflexíveis de minh'alma. Eu digo sim ao não, não ao não, e as outras oportunidades se esvaem em cada resposta que insisto em ser contrário. Sou infame, ilário, precário. Meu coração não bate, ele gira no sentido anti-horário, desejando que eu volte ao meu passado, puro, ingênuo, e impecável.

Acordo a cada milésimo com a plena certeza de meu antagonismo. O que eu sou neste exato segundo eu já não sou mais no próximo. Me confundo comigo e com meus comigos, buscando infundadamente descobrir quem eu sou: Eu sem Eu.

- Sensações Descritíveis;


Não vou buscar entender o que se passa entre nós dois, não agora.

Falar contigo parece simples, mas ainda vejo magia nisso. É doce, meigo, sutil. É como espremer um amanhecer e o colocasse em uma pessoa. Daria você.
É cômico, divertido, atraente, e me faz querer ficar por perto, mesmo quando eu me sinto deslocado.

Olho para o lado, e minha vontade mais íntima é lhe beijar a boca. Não sei se posso ou não, mas creio que não devo.
Não devo mais acender luzes onde sei que não posso iluminar, embora sinta uma luz vindo de você, me acendendo.

Como se tudo que movesse meu mundo precisasse de um pequeno empurrão, parte deste impulso parte de ti, que nunca irá notar o quão importante é pra mim, até porque eu não deixarei que note. Não quero que entre, mesmo sendo convidado. E se acaso entrar, e um dia fechar a porta, não sei pra quem mais vou abri-la.

Sou um pouco de exagero. Você de objetividade. Não somos antônimos, mas cruzamos.

Eu não estou lhe dizendo que hoje sou paixão, muito menos amor, sei que sou apenas alguém que não sabe o que deseja. E dentre o que não sei, está você.

- Prévia de Um Futuro Prévio;

Tira meu sono, desatina meu pranto,
Faz doer por eu não saber o que fazer.
Me enche o peito, me deixe sem sentido,
Pois sei que não tem mais jeito de ter-te aqui comigo.
Me corroí por dentro,
Aperta meu coração,
O ciúmes agora é o dono da razão.
Não me deixe apaixonado, sofrendo novamente,
Pois seus passos dados me sufocam sorrateiramente.
E da experiência que vivi,
O medo se tornou meu guia,
Dói n’alma tudo que já senti,
De tal forma que pensei que não acabaria.
Já não digo sim e nem não,
Pois sei que vivo de ilusão,
Uma que sei que vai acabar,
Pois sou adepto do “Que seja eterno enquanto durar”.


Excremento
O dolo mal resolvido de uma noite,
Rebusca minha alma com soluções,
Tenho-te a beira do açoite,
Mas ainda finjo emoções.

Sua busca infundada por seu ego esquecido,
É apenas o grito de um superego revirado,
Que de teus próprios sonhos está enfurecido,
E de tuas próprias mentiras incrustado.

Você se tornou seu próprio excremento,
Fétido, sujo, e desnecessário,
Sua vida não tem consentimentos,
De que afeto é completamente necessário.

Então terminarás sozinho, de canto, de lado,
Dentro de ti haverá apenas uma mentira.
Nunca terás amor, viverás do fardo
De que cada vez que respires, isso te fira.

A Pena;

Pena. Será seu nome a partir de agora.

Você, que poderia se chamar de futilidade, audácia, aspereza e segurança, terá um nome mais banalizado, e que cabe com tudo que deseja aparentar. Apenas, Pena.

Pena por ser tão medíocre a ponto de pressupor que o mundo é você, e que todos giram a seu redor. Você não chega a ser um continente, um país, um estado ou uma cidade, é apenas o vestígio de um pequeno vilarejo, onde tudo é perto, você conhece a todos, e acha que pode tudo. Mas afinal, você realmente pode, mas apenas dentro do seu pequeno vilarejo, uma pena.

Pena por ter se tornado tão fútil a ponto de tornar-se apenas o vestígio de uma marca que não caí bem em você. Ou por acreditar que 'isto' não basta pra ti, já que 'aquilo' parece ser equivalente, a sua altura. Talvez seja, profissionalmente falando, é o que você merece, já que você não passa de um zero querendo se infurnar nos números primos. Peninha!

Pena por você ter deixado sua inteligência na primeira esquina, acreditando que poderia voltar pra buscá-la mais tarde. Então, você se esqueceu de buscá-la. Você é o que você é! Oh, que pena!

E por fim, uma pena por não ter mais a melhor das suas vanglorias: Eu. Toda a saga que estava pronta dentro de ti, foi desmoronada. Hoje, você é Pena porque nunca mais poderá ter-me. Serei sua eterna jornada, num caminho sem penas.

- A Falta da Singularidade;


Toda sua diferença tornou-se comum.

Teus atos tornaram-se falhos em cada detalhe, já que o diferencial virou algo normal ao meu ver, igual a que todos já fizeram.

Seu tempo dedicado, suas falsas promessas, seus torpes sorrisos; todos vazaram juntamente com a sua tentativa de ser natural. O prazer que havia no encontro converteu-se em desprazer a partir do momento que você concluiu que o meu destino era uma competição.

Felizmente meus olhos nunca se fecharam diante dos seus, e desde o início pude prever em cada tom do seu olhar qual seria a sua próxima ação, completamente previsível, embora você tenha feito de tudo para parecer que não.

E eu, um louco lúcido dissimulado, deixei que me guiasse para cada um de seus suspiros, e deixei que estes virassem anseios diante dos meus doces sorrisos e gargalhadas. Sou um palhaço preso dentro da minha própria maquiagem, e não posso deixar que qualquer tipo de lágrima borre-a. A roupa não me cai tão bem, contudo ela se torna confortável na maioria das situações cômicas que tenho que passar, por você.

A sua vontade de ser único o fez ser o todo, o compartilhado e o semelhante.
Onde estará o você-singular?

- Caminho Sem Fim;

Cada passo, cada rua, e o que faço.
­Cada cerca, cada centro em que eu me perca,
­Desencontros fatais e reais.

­Revivo o que não quero e não espero,
­Esqueço que aconteço, e tudo tem seu preço,
­Vitórias podem ser perdidas, mesmo concedidas.

­Caminho em frente, sozinho e eloqüente,
­Estagnado com a vida, socialmente contida,
­Que vou levando embora, seguindo agora.

­E a jornada se torna dura, impura,
­Dificuldades e distâncias são as discrepâncias,
­Que me tornam ávido a continuar, e jamais parar.

- Palpitações;


O coração palpitando é apenas um palpite de um amor que nunca irá acontecer.
A cada pulsar é um impulso tomado, imediatista,
Que não é medido pela consciência,
Pois esta tem ciência do que vai fazer.
É apenas a paixão vomitando em seu peito que de fato você não quer sentir.
A sua teimosia faz com que você siga adiante, mesmo sabendo que o fim será na próxima curva que seu coração palpitar novamente,
Ou se por quem seu coração palpita sofrer um infarto.

Teu palpite será apenas mais um repleto do veneno que ele bombeia para a sua mente:
seja o amor, ou o ódio.

- Eu, meu Eu, e seu Eu;



Gostaria de ter certeza de que é você;

Senti que nesses meses que passei no flagelo, nunca mais fosse saber o que era um bom sentimento, ou melhor, um sentimentalismo. Eu sabia somente quem era eu e meu eu, e de como vivíamos sozinhos dentro de mim. Éramos essenciais um ao outro, porém era um sentimento completamente egoísta. Não queria sentir por nós dois, queria sentir por um terceiro, um terceiro para estabilizar meu coração. Os dias correram sempre com sentido, mas um sentido próprio, de quem vira com a córnea e a íris para dentro, e o globo ocular completamente branco pra fora. O mundo era da cor do sangue, mas era confortável e cheio, de mim.

Até o dia que senti algo diferente. Alguém tirou meu eu de mim. Eu me tornei uma pessoa só, mas vazia, buscando aquele velho complemento egoísta. Sentia-me frio e esquecido, pois todos os desejos que eu havia compartilhado, tornaram-se apenas meus. Era você, que havia cruzado o meu caminho, desvirando meu globo ocular, fazendo minha pupila dilatar, dando um velho-novo sentido ao meu mundo.

Seus gostos excêntricos e exóticos se misturavam aos meus; seu cheiro me inspirava a não largá-lo. Sabia que tudo tinha um novo ritmo, um novo sentido. Eu sabia disso, pois quando éramos eu e meu eu, eu senti algo parecido, mas não era tão completo. Sabia que você agregava algo em mim, mas ainda não havia encontrado palavras para definir, e talvez eu jamais encontraria. O que eu sentia era único.

Percebi que podia viver sem meu eu, somente eu e você. Mas, até quando eu seria tão importante quanto seu eu? E até onde iríamos notar que ambos somos complementares, e não somente necessários? Eu sei dizer do que sinto, mas não sei dizer do que você sente. Talvez eu seja apenas a sombra que seu globo ocular ao inverso, que olha por dentro de si, tenha uma pequena noção do mundo de fora. Aguardo o dia em que possa ver a verdadeira cor dos seus olhos. Espero ansioso que possa olhar diretamente nos meus.

Sem meu eu, sem seu eu. Somente eu e você.

Sinto saudades do que não deveria sentir. Sinto falta dos olhares cruzados, do beijo descompromissado, das coincidências que nos pareceram nulas.
O seu rosto expressivo, discreto e tímido bem perto do meu, dizia muito mais do que todas as palavras que sua timidez não me disse. Não era nada, não é nada, mas estar perto de você me faz um bem incomum. É como se o mundo fosse um seriado de televisão sem episódios tristes, com uma música levemente agitada e romântica tocando, e nossos corações (ou somente o meu) palpitando em um ritmo frenético.

Percebo que você não está tão próximo quanto eu gostaria. Não sei se por você, pelo seu jeito retraído, ou mesmo por mim. Sinto algo que não deveria sentir, para não estragar tudo: saudades.

- Manto;


O desejo voraz da guerra recaí sobre nossas almas como um manto sujo de sangue. O prazer de continuar insistindo em dores psíquicas faz com que os sonhos se transformem em uma bola de desejos infundados, que não merecem mais do que a lata de lixo. Esquecemos que o lixo vive dentro de nós mesmos, e por mais que tentemos excluir nossos sonhos, eles serão reciclados por dentro. A única coisa que não salva você de seu sonho, é quando sua consciência é pútrida, onde não permite que nada, além da aspiração pelo mal, viva e conviva dentro de você.

Houve um tempo em que o amor preenchia suas veias, invadindo seu coração, mas o contágio do pior veneno do mundo, o ódio, fez com que nada mais circulasse por suas veias além de seu sangue, e este, sujo pelos impulsos fétidos de seu cérebro, que só tem aspirado pelo rancor.

A vida que lhe brota dos olhos, pode ser sua maior ou pior aliada, dependendo do manuseio das suas pálpebras. O olhar bruto e desumanitário te leva a manipular desejos e transformá-los em anseios, dos quais não se pode fugir. Não há fuga do medo, do imprevisível, e por mais que você tente prever o futuro, o próprio medo faz com que sua previsão escape por seu cérebro, como a água que escaparia pelos dedos. Sua atitude brusca e deprimente te leva a um subterfúgio negro, onde ninguém poderá lhe salvar.

A alma coberta de sangue passa a ser sua principal armadura, amargurada, e dura.

- Desassossego;

Meus pensamentos me consomem a cada segundo que o sangue corre por minhas veias.
A felicidade me domina e me abomina no mesmo milésimo,
E eu vivo sem entender o porque de viver.
Sou concreto e conciso, sou desperto e indeciso,
Paro e pairo diante do caminho,
Sem saber qual vertente seguir.

Paradoxos de meus desejos,
Existo por inexatidão.
O tempo se abre e se fecha, a melodia toca, e eu sigo a canção.
Eu me tornei meu próprio desapego.
Desassossego.

- Sombra;

Cerrou os olhos. Ao contrário do que seria padecer para a vida, os olhos se fecharam para a sabedoria, para o amor, para a felicidade. Era a vida que continuava viva, mas que era deixada de viver.


Nada se comparou aquela tarde resplandecente. Os feixes de luz entravam por cada vão da cortina, sobre a janela da sala. Era inverno, mas aquela luz fazia com que eu me aquecesse, e me sentisse seguro por entre a alegria que era gerada em cada pedacinho de luz. Eu sabia que eu era feliz, simplesmente por estar ali, e mesmo sem fazer nada, eu sabia que tinha o mundo aos meus pés. O tempo passava lentamente, e eu curtia cada segundo sem fazer nada, apenas admirando como era belo viver.

Ao entardecer pude perceber que algo estava prostrado em minha porta. Eu não sabia dizer se era a sobra de alguém, se era alguém querendo ser sombra, ou se não era ninguém. Não me assustei, pois sabia que estava acolhido com todo o poder da felicidade que me cercava. O que estava parado em minha porta decidiu entrar. Era estranho, fora do comum. Como se uma pessoa tivesse vestido a sombra que o segue em cada segundo onde há luz, e tivesse se tornado a própria sombra. Mas ao mesmo tempo era possível ver as roupas, a silhueta e os olhos daquele serão conseguia visualizar o seu rosto, pois ele estava perdido dentro de sua própria sombra. A sombra chegou mais perto, me cercou, me fitou, e permaneceu de pé, parada. Toda a felicidade começou ir embora...

Após um longo tempo, a sombra balbuciou:

- Interessante é perceber que, quando pensamos que fomos tudo, na verdade não somos nada! Eu fui tudo, eu fui o ápice, cheguei a lugares do coração que nem mesmo o maior poeta imaginou chegar, e hoje estou aqui, me consumindo, tornando-me sombra de minha sombra – Eu não via sua boca se mexendo, mas sabia que ela estava ali – Eu tinha o mundo, eu tinha você, e hoje, sou somente o que jamais sonhei ser um dia. Sou a tristeza, o assombro, a mentira, a escuridão e a solidão. Não sinto mais o sangue correr por minhas veias, as feridas arderem, ou me coração bater. Simplesmente sei que sigo, por debaixo desta capa natural, por um caminho sem fim, para o nada.

Desejei não ter ouvido essas palavras, que consumiram todo o restante da felicidade que a tarde havia deixado em mim. Porém, juntei forças de toda a luz que recebi, e respondi uma pergunta que não havia sido feita:

- A realidade é que você nunca foi tudo isso que você pensou que fosse! Você é normal, e não superior, como sempre achou que fosse. O mundo nunca girou em seu umbigo, embora as pessoas o fizessem acreditar a cada segundo nisto. Você não é e nunca será o centro, assim como eu e ninguém também vai ser. Somos todos microorganismos de um só corpo, o universo. Você fez com que tudo e todos os tipos de sentimentos que as pessoas cultivavam de você, morressem deliberadamente a cada minuto que você queria se sobressair. E agora, você continua fazendo o mesmo, só que vestindo uma capa, para que jamais descubram que é esse novo você. – Eu não sabia quem estava por detrás daquela sombra, mas de algo eu tinha certeza: era alguém que já gostei muito. Por mais seca que a sombra tenha aparentado, havia nela algo de procura da verdade, da realidade.

Aquele alguém retirou sua sombra, deixando mostrar sua verdadeira face. A última pessoa que imaginei que fosse, se escondia atrás daquela sombra: Eu.

Palavras Fúnebres

Não se podia esperar mais nada. Todo o tempo que passou, a vida que foi gasta, o amor, o carinho, a afeição, os sonhos e os desejos esvaeceram, junto com este. Sentia seus olhos fugirem dos meus, os mesmo olhos que me perseguiram a vida todo, que me apoiaram, me repreenderam, me acalentaram. No mundo, não existia mais universo, planetas e nem ao menos um deus, existíamos apenas eu e você, afim de esclarecer o que não pode ser esclarecido: a palavra dita.

O reencontro deu-se de supetão, mas mesmo sabendo que um dia, por circunstancias do acaso de um mundo pequeno, nos veríamos. De fato, não reconheci tal alguém, e como suas formas que, de alguma forma, já foram graciosas, e como se tornaram bruscas e recalcadas. A sonoridade da voz, o jeito de se expressar, cômico e agradável se tornou uma farpa, que a cada movimento rítmico, sentia-me perfurado e vazio. Ocorreu que nem mesmo o que acreditei ser a verdadeira entrada da vida estar correta, pois ela tinha outra forma, outra cor, outro sentido, como se alguém quisesse fechar qualquer entrada para si, e fugisse de qualquer aproximação com sinceridade.

Percebi que embora houvesse a mesma intencionalidade na questão da estética, havia uma capa feita de aço imaginário, do qual qualquer um seria incapaz de penetrar, ao não ser este desejasse, com todo o amor que ainda poderia haver em sua alma, escapar de tal armadura. Mas este não quer. A armadura que um dia fora de dentes-de-leões e lírios amarelos, leve, alegre e resplandecente, se desfez aos poucos, com a amargura de algo inimaginável em seu corpo, com o sofrimento incabível de coisas que nem mesmo este sabe o que é.

A cada segundo me surpreendia mais. A atitude mais extremista, que nem mesmo aquele que se encontra preso dentro de si é capaz de tomar, este tomou. Tomou de tal forma que se esqueceu de que o extremismo é nítido quando se busca a utopia, e de que a galáxia, as estrelas e o sol percebem o quão falseado este se torna por isso. A palavra, a mesma que causou a discórdia, é a mesma que impregna em todas as suas relações afetuosas, em todos os seus anseios. A palavra, que não tem culpa de ser palavra, não está sozinha. A palavra estará sempre acompanhada de medo, rancor, raiva, ódio, pena, gastura, asco, vomito, dor e agonia, e por isso todas as palavras que saem da sua boca, se tornam palavras fúnebres, pois você se matou, por dentro.

Percebi que este encontro teve apenas poucos minutos, as palavras fúnebres foram dirigidas à mim contáveis vezes, e que não havia mais nada a ser feito. A alegria contagiante que estava no mesmo ambiente que ocorreu o reencontro não permitiu que o negativismo dominasse e culminasse por ali. A beleza de viver tomou conta do local, e fez com que nada que viesse deste atingisse alguém. O amor predominou, e desta forma, este não teve mais como agir ou reagir, buscou um canto, permaneceu com seu aço invisível, deixou a entrada fechada, porém, estampou em suas relações uma forma de subterfúgio – palavras vazias.

Engano;

Você acreditou ser aquele que todos pensam que são. Mas não é, e não era.
Ao pensar que me apaixonei, na verdade te deixei apaixonado,
Te driblei e te enganei, lhe prometendo algo infrutífero,
Algo que jamais lhe darei: um pedaço meu.
Por mais inconsciênte que sejamos, você não passa de uma vontade do meu âmago,
Algo que se eu tivesse, inflaria o egocentrismo contido em mim,
Mas como não tive, não passarás de um jogo de sedução, que por um momento pareceu sério, mas não de uma brincadeira.
Gosto dos falsos olhares, das falsas indiretas, do falso amor.
E sei que posso encontrar tudo isso em você,
Assim como você pode encontrar em mim,
Exatamente aquilo que não procuras:
Você mesmo.

A Verdade e a Mentira;

Você é a exata mentira que eu imaginei que fosse de fato. E eu sou a verdade, que sempre fui e sempre serei.

Mentira pois seu falso moralismo me fez acreditar que você poderia ser um grande e imaculado jardim, o qual eu poderia correr feliz e por todos os lados, levantando com o vento flores e folhas para todos os lados, com muita alegria. Mas, você é somente um bosque escuro, com árvores negras, sem folhas ou frutos, em um lugar sombrio e sem vida, que faz que qualquer felicidade morra.

Sou a verdade, pois nunca lhe mostrei ser um jardim, muito menos flores. Acredito que, por todo esse tempo, eu tenha sido a realidade - sou a rua movimentada, sou os carros, os onibus, o rico e o pobre, a alegria e a tristeza. Eu sou exatamente aquilo que você vê diante dos seus olhos, sem utopias e fantasias.

A Mentira e a Verdade não combinam, não se cruzam, não se encontram. Se um dia, nos cruzamos, nos encontramos e acharmos que combinamos, é que o Destino quis provar que jamais nos uniremos. Você é o centro. Eu sou o todo.

- Livre;


Tempo, pra que te quero?
Se for pra me prender enquanto estou solto,
E quando me solto, já estou preso.
É a liberdade o que eu preciso,
É a felicidade o que eu espero.

Entre tantos contratempos,
Os momentos são desencontros,
Entretanto, meus tormentos,
Entre pontos, são alentos
Que entregam meus encontros.

E liberdade, pra que te quero?
Eu a quero pra deitar em seus ventos,
Despegar minha alma,
Entregar minha calma,
Esquecer os sofrimentos.

Eu te quero pra ser livre,
Para caminhar até o enfim,
Não chegar ao meu fim,
Para sempre continuar;
Pois ser livre não é ter asas,
Mas sim saber voar.

Meu Ninguém;

- Desde o segundo em que sua imagem atravessa minhas vistas, te olho de relance, a todo momento, sem que você perceba. Mas eu me engano, pois tenho certeza de que você também me olha, de canto, para dentro dos meus olhos. Eu não sei, de fato, qual o seu tipo de interesse. De certo, e de longe, não é o mesmo que o meu. O meu é profundo, e talvez não seja o fato da sua beleza me afrontar, mas sim o jeito cativante com que você faz, mais especificamente, nada. Acredito que para você eu seja apenas alguém metrossexual, que passa mais tempo dentro de um espelho, do que fora dele. Está certo, e está errado. Boa parte do tempo me encontro dentro do espelho, para que você me tire dele, e me faça enxergar-me dentro de ti, pois é o lugar que eu desejaria estar.

Você é uma incógnita. Não sei se existe alguém que seja seu, se você quer alguém para você, ou se o mundo é o seu alguém. Sei que nunca irá me confessar isso, pois você é subjetivo. Você conversa com todos, com a mesma simpatia, e a mim parece mais que você está afim de qualquer pessoa com que você dialoga, menos de mim. Mas, não tenho o direito de me questionar quanto a isso. Eu não sou seu, pois não pertenço a ninguém; você não é meu, pois você quer ser meu ninguém.

- A Primavera;



A tarde típica de primavera não negava o seu ânimo. O tempo estava fresco, poucas nuvens no céu, e o sol levemente caloroso, do tipo que dava vontade de bocejar. Uma leve brisa batia nas plantas, como se os anjos estivessem brincando de assoprar seus cataventos. Ele caminhava em direção à caixa de correio, do tipo prateada, que ficava presa no grande portão de madeira. Ela estava cheia de folhetos de pizzarias, dentistas e contas para serem pagas. Porém, havia uma correspondência em um envelope vermelho, selada com um brasão, com desenho de um leão no centro, sem remetente. Mais que depressa se senta no chão, esquece todas as contas e prestações, e abre o belo envelope. Era um papel de carta avermelhado, com desenhos de flores em margem d’água, e com aroma de perfume amadeirado. Começou a ler:



Mundo, todos os dias de minha vida, até a minha morte.



Exatamente à você.



Espero que se encontre de coração aberto, de afetos limpos e sem sonhos desperdiçados. E, espero que tudo isso esteja de tal forma para que eu possa lhe dizer o que sinto por você (nada que você já não saiba). Sim, é impossível negar que eu amo você, que gostaria de ter-lhe todos os dias ao meu lado. Gostaria de sentir o seu abraço mais apertado, os seus desejos mais secretos, e ouvir todos os seus sonhos, e sentindo cada um deles me invadirem lentamente, enquanto deitamos no céu, e observamos a grama.



Ainda ontem ouvi novamente aquela velha música que eu não suporto, mas sei que é a sua predileta. Ouvi, pelo menos sete vezes. Chorei depois da quarta. Assisti, sozinho, o filme que você comentou comigo que era divino. Não gostei. Mas eu gosto de você, então o filme se tornou interessante em pequenos detalhes que me lembravam o seu jeito, o seu sorriso. Olhei suas fotos, uma por uma, reparando como seus olhos brilham com sinceridade. Parecia que você estava em minha frente, ou apenas seus olhos, de cor marrom avermelhado, se encontrando com os meus.



Acredito que neste momento, em que você lê esta carta, o dia está alegre, como se o outono, o verão e a primavera se esbarrassem, dessem as mãos e fizessem uma roda em torno de ti, entoando palavras de felicidade dentro do seu coração. Eu às vezes penso ser a Primavera. Eu falo tudo o que desejo, mas é como se você não me visse, ou se me vê, ignora a minha existência.



Você prefere que o inverno lhe sonde, dê voltas principalmente dentro de você, e ainda mais perto de seu coração. E eu posso jogar quantas pétalas existirem em cima de você, todo o seu inverno irá congelá-las. Você é o Inverno. Não, você não é frio, pelo contrário. Sua simpatia e harmonia me lembram mais o verão. Mas, basta eu olhar para os seus olhos cor de cerejeira, que por dentro me aparece um lago congelado. Eu sou a Primavera. Eu resisto a quantos lagos congelados forem necessários, para deixar que todas as minhas cores te invadam, e o frio passe. Eu assopraria pétalas de girassóis em torno de ti, para que você possa brincar de ser o sol, e aquecer o mundo, me aquecer.



Sei que se ama mais que tudo, mas que tal permitir-se a maior dádiva da vida? Que tal ser apresentado ao amor? Se quiser, lhe apresento agora, já que ele não tem endereço fixo e está morando aonde você preferir que ele more. O meu amor mora dentro de você. Eu sei, foi ele quem me contou. Não, ele não disse com palavras, foi com seu sorriso, com o seu jeito. E, se permitir que o seu amor viva dentro de mim, você ainda receberá taxas de felicidade, junto com quantos aposentos de afetividade você precisar. Nunca mais precisará habitar outro alguém da mesma forma, eu te completarei.



Sabe onde me encontrar. Se não souber, eu sei como lhe encontro.



Sem mais,

Sua Primavera.



Ele re-leu mais uma vez a carta. Seu olho brilhou. Então a rasgou, junto com o envelope vermelho, no máximo de pedaços que podia. Ele não se permitia, não se deixava. Queria, e não queria.



O vento tratou de fazer pedaço por pedaço rodar em sua volta, como um pequeno furacão de emoções. Os pedaços do papel se misturaram com as folhas secas e as pétalas do jardim. Giravam para todos os lados, como se dançassem. A carta foi despedaçada, mas o conteúdo ficou dentro dele. Os anjos não brincavam mais com seus cataventos. Não era mais o vento quem dava as ordens, era a Primavera.



- Eu sou como o Tempo;

Eu sou como o Tempo. Desprendido de qualquer situação, eu passo e deixo marcas. Enquanto eu estou aqui, posso não estar mais. Eu sou o antes, o agora e o depois; faço parte do seu cotidiano, estou dentro e fora de você, perto e longe, você vê e não me vê. Eu sou notável e imperceptível, posso ser a falta e o excesso, o que está em sua mão, e derrepente não está mais.

Eu sou como o Tempo, que embora todos tentem me dominar, sou indomável, e quando pensam que me administram, eu escapo por entre os dedos e participo de outra parte do seu corpo. Estou a tua volta, te guiando, mas não mudando o rumo de sua vida, pois, embora eu seja como o Tempo, não tenho o poder de ser a tua jornada, apenas de estar ao seu lado.

Mesmo eu sendo como o Tempo, jamais me confunda com o Destino, pois te deixo livre para fazer escolhas, não digo o que é certo, não recrimino o que é errado, não te guio nem te consumo, deixo que você pense e aja, por si. E, embora eu esteja sempre em sua vida, não sou como o Passado, que não lhe dá uma segunda chance de recomeçar.

Eu sou apenas como o Tempo, te dou todas as opções de ser feliz, só dependo do seu Tempo.

Meia Luz;

Ele estava na sala. Ela era razoavelmente grande, com três paredes brancas e uma com textura cor de laranja. A luz estava apagada, e todos os moveis que podiam ser observados estavam à meia luz, dentre as sombras. Assim que adentrei o ambiente, não havia percebido sua presença, até porque fazia muito tempo que não sentava naquele sofá.

Me deparei com centenas de perguntas em minha mente, mas a vergonha do que ele poderia achar, ou mesmo responder. Não disse nada. Não dissemos nada. Apenas sentamos, lado a lado, como se o mundo fosse aquele ambiente.

O tempo passou, e vi que muita coisa ocorreu nesse meio tempo. Eu cresci, vivi novas experiências. Mas, continuavamos sentados naquele sofá, sem muito a dizer, ao não ser a própria meia luz nos calando gradualmente. Mas um dia, a luz se apagou, eu não vi mais o sofá, eu nunca mais o vi.

Foi o tempo perdido com baboseiras. Foram as baboseiras que nunca disse. Foi o que será daqui em diante.

Novas Condições;


Não posso mais transpassar a redoma que um dia vivi.
Dentro dela me infurnei,
E se alguns segundos eu me desencontrei,
Foram nestes que me decidi.

Em tais decisões encontrei resposta claras,
Das quais sequer imaginei encontrar,
Soaram pesadas, frágeis e raras,
E sei que à elas posso me entregar.

Decidi que a infelicidade que me causava estafa,
Estagnava as etapas que deveria viver meu coração.
E a todo momento em que o sufoco me abafava,
Deveria sorrir, mesmo em contradição.

Não haveriam mais metas para a felicidade,
Pois ser feliz deveria ser lei.
Se estou desgastado com esta verdade,
Resgatarei a verdade que de fato eu sei.

UC1 - 117 / 11h10 (Pai)

Era uma bela e incomum manhã de outono. Uma brisa fria batia em meu rosto, junto com o sol radiante, e o céu de multitons de azul, sem ao menos uma nuvem no céu. O dia era perfeito para um dia feliz. Era.

A manhã se convertia em um quarto de hospital, divido em seis leitos, seis vidas, e uma delas, me pertencia. Um pedaço de mim se mantia em estado delicado, com aparelhos ligados ao corpo, uma inalação somente com água, e duas bolsas de soro, que fingiam derramar a vida de gota em gota. O pedaço que permanecia dentro daquele quarto era parte de meu alicerce, este que já estava debilitado por ser apenas, ao invés de dois, somente um.

A cena era chocante, e triste. Meu alicerce buscava resgatá-lo, sem sucesso. Então, tal pedaço, com seus olhos semicerrados pareceram me identificar. Os olhos que quase fechavam, se abriram de forma rápida, por cerca de um segundo, e me olharam dentro d’alma. O segundo se transformou em um gigantesco flashback. Os grandes e arregalados olhos verdes me levaram por um mundo que eu já havia vivido, mas havia esquecido. Fui até minha infância, onde ele me vestia com o meu bom e simples uniforme verde e branco da pré-escola; que me acordava pelas manhãs; me levava ao cinema, fazia brincadeiras. Deitava ao meu lado na cama até eu pegar no sono, quando tinha medo do escuro. Cantava músicas sertanejas, ou mesmo desconexas, com ritmos próprios produzidos pela boca, e que ele mesmo inventava; contava histórias, dava broncas, aconselhava sutilmente; era bravo e calmo ao mesmo tempo. Aquele olhar me serviu como máquina do tempo, me fazendo pensar e repensar em cada segundo bom que eu já havia vivido ao seu lado, esquecendo a cena que eu vivia naquele segundo. Ainda com tempo, eu buscava encaixar aquele pedaço a mim, dizendo tudo que estava engasgado, soltando poucas palavras que a vergonha idiota não me permitia dizer ao longo dos anos. Havia tempo de dizer. Havia tempo de se escutar. Havia tempo de responder.

Meu pedaço deixava claro que lutava contra o tempo, contra os batimentos cardíacos, contra a luz divina que descia para buscá-lo. Ele esperou, por longas horas, que toda a família se reunisse a sua volta, que lhe dessem o último e penoso adeus, e que ele pudesse lavar a alma naquele leito de hospital. O mundo se fechou em quatro paredes, e em quatro almas entrelaçadas.

Uma enfermeira entra no quarto, e pede licença por cinco minutos, enquanto trocava os pacientes dos demais cinco leitos. Foi à deixa do meu pedaço. Já havia se despedido, não havia necessidade de vermos sua partida. Viramos as costas e ele se despediu do mundo. Os médicos correm, como se buscassem resgatar tal vida, aquela que já estava cansada de viver neste plano. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Nada que os médicos fizessem, o trariam de volta como meu pedaço já fora um dia.

Ele fechou os lindos olhos verdes, para sempre. Não precisaria mais deles. Agora seus olhos eram os da alma, e com estes, ele veria o meu e outros mundos, com outros olhos.

Sobrepondo Pessoas;

Abri a porta e me deparei com um ambiente sem luz, sem vida, sem graça. Procurei o interruptor, e nada encontrei além de mofo na parede. Criei a luz com o flip aberto do meu celular. O quarto ficou a meia luz. Haviam coisas antigas, rodeadas por poeira, humidade e teias de aranha. Dentre tantos objetos haviam: uma fotografia molhada do lado direito, desfocando quem estava ao meu lado; uma penteadeira com um espelho trincado, que só permitia ver-me em diversos pedaços, e um ursinho velho, marrom, sem um olho e o fucinho, e soltando bolinhas de isopor por sua pata direita. Encontrei também uma vela. A acendi



Sentei em frente a penteadeira, me vi em 14 pedaços. Em cada um deles eu tinha uma face diferente. Olhei a fotografia, e era bem recente; mas não consegui enxergar quem estava ao meu lado. Abracei o ursinho, com força, até meu nariz coçar insuportávelmente e quase todas as bolinhas saírem por sua pata.


Cada face que eu olhei, era um pedaço desfacelado de mim.
Quem estava naquela velha-nova fotografia, já fizera parte de mim.
E cada vez que o ursinho derramava suas bolinhas de isopor, e esvaziava, era eu quem ficava vazio.

Apaguei a Vela.
Apaguei a luz do celular.
Fechei a porta do quarto escuro.
Não era o quarto;

Era a Vida.