
Não posso mais perguntar "Espelho, Espelho meu", pois acabo de descobrir que o espelho sou eu.
Após tantos anos enfrentando face à face a minha face de vidro, percebi que estava desfacelada em diversas outras faces, como a face que encontro em você.
O oxigênio entrando em meu corpo, o gás carbônico saindo, o pulsar de meu coração, minhas naúseas, meus pés, braços, sentidos; são todos pertencentes a você, que está do outro lado do espelho, do outro lado de mim, dentro de mim.
Suas atitudes nada mais são que minhas atitudes, e posso saber tudo o que você faz, tudo o que você já fez, tudo o que é capaz de fazer. Eu sou você. Você sou eu. Somos apenas vidro espelhado, e alguém do outro lado.
Seus desejos incompletos me completam, seu olhar perdido tentando disfarçar sabe-se lá o que, teus lábios na medida, teu jeito descabido. Eu não sei se sei quem é você, que encontra-se em meu vidro, dividindo meus sentidos.
É o narcizo disfarçado de mim mesmo, apaixonado por alguém que sei exatamente quem é, que sabe o que quer, e neste querer está não querer nada. Eu não quero nada com nada, com você, sem nada. Eu olho no espelho enxengando um eu de outra forma, de outra cor, de outro rosto.
Fico preso em uma imagem clara, limpa e extasiante, na qual me pego por horas sem fim, olhando. Eu esqueço de esquecer que é somente o espelho, e se estou do outro lado, não posso ter quem me olha fixamente; sem saber o que sou, já que sou exatamente você.
- Através do Espelho;
Postado por
Bruno Érnica
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Marcadores: Devaneios
1 comentários:
aaah meu poeta...nunca mais tinha lido nada teu!
inspirado como sempre! amo-te amor!
vou casar contigo!rs
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