
Você acabou de assinar a página final do seu livro negro.
Compulsivamente aquilo que um dia eu chamei de coração se transformou em fígado, e o sangue que um dia foi bombeado pelo meu corpo se transformou apenas na bile que permanece em minha boca, deixando-a amarga, onde sinto o gosto do fel, onde sinto seu gosto.
Suas promessas tornaram-se infundadas, e já não me empetece mais como antes. Você mente, dissimula, descria e me fere, como jamais imaginei ser ferido. É como se me amarrassem em um lindo e imenso jardim, e cada vez que eu tentasse fugir, um pedaço de mim estaria perdido por entre as belas flores.
O desejo tornou-se a minha fuga, e eu desejo fugir pra qualquer lugar que não tenha a sua imagem, pois o asco me fará regurgitar. Meu corpo arde em febre do rancor, da mágoa e da desilusão. Sinto cada pólo queimando, por dentro e por fora, como se pequenas brasas invadissem meus poros, e eu não pudesse apagá-las.
Agora prometo te olhar como um qualquer, como um desdém, como um ninguém, que não merece sequer minha compaixão, pois com ou sem paixão, você será apenas reflexo do que um dia eu pude gostar. Acabo de acreditar que tenho um ótimo mau gosto, já que me sentia bem contigo, um ser que nem deveria ser chamado de ser, pois a única coisa humana em você é sua feição.
Pretendo desviver tudo o que for necessário, desencontrar tudo o que foi válido e desgostar de tudo que foi vivido. Sou apenas um antro de sentimentos desagradáveis em relação a você; ainda que consigas ser infinitamente mais desagradável que meus sentimentos. Desvirtuarei tua felicidade em forma de sorriso, com um olhar fulminante, com um sorriso entre dentes, e uma chama ardendo por dentro, para que você morra, dentro de mim.
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Postado por
Bruno Érnica
terça-feira, 16 de março de 2010
Marcadores: Devaneios , Metafóricos
2 comentários:
Parece-me um daqueles monólogos que Shakespeare coloca em meio a Hamlet pra demonstrar a dor e o sofrimento dos corações pendentes. Bruno, eu amei!
Nunca consigo associar o Érnica todo feliz que eu conheço com os textos que ele escreve.
Sabes que eu a-do-ro o que você escreve, né?
♥
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